A
gente deve trabalhar, lutar com a vida, não podemos ficar parados e um exemplo
de homem trabalhador é o que eu vou falar agora.
Minha fazenda era muito suja, cerradão e lá, um dia
apareceu um rapaz de família muito pobre. Mauro Sérgio Ribeiro era seu nome.
Seu pai morreu quando ele era pequenino, deixando a mãe em situação difícil. Sua
madrinha de batismo o pediu a ela porque ela não tinha filhos e precisava de
alguém para deixar sua herança. Ela quis legitimá-lo como filho. Assim, ele
estudou até os 18 anos e depois disse a madrinha... Não vou seguir os estudos,
eu gosto é de fazenda, criar gado, tocar lavoura.
Sua
madrinha chamou o avô do garoto, Seu José, que era homem pobre, mas mexia com
lavoura, administração de fazenda era seu ramo. Foi chamado para ajudar o neto,
pois a madrinha havia lhe comprado uma terra. O rapaz era de família mineira e
agora havia ganhado, aqui em Goiás, uma fazenda de 233 alqueires. Comprou,
logo, outra de mais 140 alqueires à beira do Rio Preto. Seu avô sempre o
orientando.
A
madrinha também lhe deu 2 tratores e, com eles, o jovem rapaz desmatou 180
alqueires de chão bruto. Nesse tempo, os capins conhecidos eram Jaraguá,
Colonhão e Gordura. Em 100 alqueires ele botou semente de capim e até em meio
um arrozal. Plantou arroz e milho no leirão. Dava pouco, mas não tinha adubo
nem nada, era só a natureza do Cerrado. Ao colher o arroz, ele me disse... Vou
botar mil vacas nestes 100 alqueires. O senhor tem um gado pra me vender?
Vendi
150 vacas para ele. Ele disse que venderia o arroz e iria me pagando. Assim aconteceu. Pedi que ele arrancasse
cerrado para mim, mas ele me indicou a Goiás Rural que estava chegando à região
e seu serviço era muito mais barato.
O
governador, nessa época era Leolino Caiado, que comprou 500 tratores e espalhou
em Goiás para beneficiar o estado, porém quando acabou seu mandato o outro
governador não se interessou na continuidade do trabalho.
Mauro
Sérgio disse que já estava pesquisando sobre uns capins bons que estavam
aparecendo e decidiu semear Braquiária em quase toda a fazenda. O capim se espalhou
por todo o estado. Capim novo dá gado bonito e ele teve sorte.
Reuniu
20 famílias e passou um contrato de dois anos, dando um alqueire de lavoura
para cada uma. Pagou-as para fazerem o serviço de lavoura e tudo correu muito
bem.
Quando
venceu o tempo, as famílias foram embora e ele vendeu a fazenda. Ele então
comprou outra em um lugar que tinha gostado muito, perto da antiga capital.
É
muito difícil um rapaz novo e inteligente como ele. Tornamo-nos muito amigos, é
uma pena que ele tenha ido embora. Hoje deve estar muito rico.
A
Goiás Rural veio desmatar Cerrado para mim e para toda a região. No primeiro
ano, foi de sorte e tudo correu muito bem. Plantei 35 alqueires, paguei as
despesas e tive lucro. Depois o governador desativou esta empresa e tive que
entrar no Banco do Brasil para conseguir dinheiro para desmatar mais Cerrado.
Tudo
correu diferente da primeira vez. Eu arrancava o Cerrado, fazia a limpeza, gradeava,
plantava, mas na hora do arroz soltar cacho, e o milho pendoar vinha o sol e
torrava tudo. Na colheita, nunca consegui saldar 20% da dívida.
Eu
tinha um amigo que me emprestava dinheiro e então eu conseguia pagar o banco,
lá nunca passei devendo um centavo. Isso aconteceu por 4 anos aqui no município
de Rio Verde. Foram anos de tombo, mas continuei na luta.
Com
a abertura do Banco do Brasil em Caçu, os lavouristas de Cachoeira Alta foram transferidos
para lá. Fui falar com um gerente novo, muito bom. Disse que queria desmatar 50
alqueires e ele respondeu que eu deveria desmatar logo 100 alqueires. As
informações que ele tinha sobre mim eram muito boas. Assim fiz, desmatei tudo
de uma vez e isso deu certo.
Nesse
ano, distribui a terra com os filhos para eles tocarem lavoura. Deu para
arrumar tudo e acertar todas as contas.
Nessa
época, comprei uma fazendinha pra pagar com 10 anos de prazo. Dando 200
bezerros por ano. Todo dia 30 de junho era o dia de entregar os bezerros. Nunca entreguei bezerro dia 1 de julho, era
no dia certo. Neste dia, o dono já ia embora tocando os bezerros.
Muitas lições
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